"Esse mecanismo, na minha visão, está em processo de desmoralização. A nossa profissão está readquirindo a economia política que ela jogou fora nessa aventura de ter formalizado tudo e ter esquecido que nós somos uma ciência moral. Nós nunca vamos ter esse padrão: eu faço uma hipótese, construo um modelo, testo o modelo e o modelo que vale. O conhecimento da economia política é fundamental para a boa administração pública, não há dúvida. E nós destruímos isso. Mas estamos reconstruindo. E vai ser muito mais gostoso reconstruir essa teoria econômica do que tê-la destruído." (Delfin Netto, em entrevista a revista Carta Capital, 22/12/2010, pág. 48).
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
SOBRE OS LIMITES DO MERCADO AUTORREGULADO
"(...) o economicismo sustenta que o jogo das forças econômicas regular-se-ia a si próprio e tenderia automaticamente ao equilíbrio sem que fosse necessário nem possível submetê-lo a um poder moderador (...) É impossível que uma função social exista sem disciplina moral. Porque, de outro modo, não há mais que apetites individuais - que não naturalmente infinitos, insaciáveis - e, se nada regulá-los, não podem regular-se a si próprios. E daí provém, precisamente, a crise que sofrem as sociedades européias. A vida econômica adquiriu, há séculos, um desenvolvimento que nunca tinha alcançado; de função secundária que era, desprezada, abandonada às classes inferiores, passou ao primeiro lugar (...) Uma forma de atividade que passou a ocupar tal lugar no conjunto da sociedade não pode estar desprovida de qualquer regulamentação moral especial, sem que disso resulte uma verdadeira anarquia. As forças que foram desatadas já não sabem qual é seu desenvolvimento normal, dado que nada indica onde devem deter-se (...) É da maior importância, então, que a vida econômica seja regulada, que se moralize para que os conflitos que a perturbam desapereçam e para que os indivíduos deixem de viver no seio de um vazio moral no qual sua própria moralidade individual se debilita." (DURKHEIM apud IAZZETTA, Osvaldo. Liberdade e Regulação em uma Sociedade de Mercado: semelhanças de família em Durkheim e Polanyi. In: LIMONCIC & MARTINHO. Os Intelectuais do Antiliberalismo. RJ: Civilização Brasileira, 2010, pág. 26)
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
SOBRE A CPMF E O PODER DA MÍDIA
"Veja o poder da mídia. As classes patronais fizeram com que as pessoas que não pagavam e que eram beneficiadas pelo imposto ficassem contra a CPMF. Sabe por que essa sanha contra a CPMF? Quando regulamentamos a contribuição, a Receita Federal foi proibida de cruzar a informação do Imposto de Renda, mas Everardo Maciel, então secretário da Receita, decidiu cruzar as informações e encontrou o seguinte: dos cem maiores contribuintes da CPMF, 62 nunca tinham pagado Imposto de Renda. Tinha microempresa (que por definição não pode movimentar mais que 120 mil reais por ano) que movimentava 100 milhões de reais. Aí permitiram cruzar as informações. O que aconteceu? A arrecadação federal passou de 6 bilhões, 7 bilhões de reais por mês para 21 bilhões, 22 bilhões. É evidente que gente que nunca pagou Imposto de Renda queira acabar com a CPMF. Aí fizeram uma brutal campanha nacional e convenceram até quem era beneficiado pelo imposto. Se pegar o sujeito que ganha salário mínimo ele é contra, mas quem ganha salário mínimo não paga. Uma vez discuti com esse presidente da Fiesp (Paulo Skaf), que comandou esse processo, tomara que ele um dia chegue a administrar para ver como são as coisas. Disse a ele: "Vocês não querem pagar imposto, esse é o grande problema". A carga tributária brasileira é muito mal distribuída. É predominantemente sobre produtos, bens e serviços, que estão na planilha de custo da empresa. A companhia não paga um tostão, repassa ao consumidor final. Além disso, um terço é de encargos da Previdência Social. Se esse um terço for excluído da conta, a carga baixa para 24%, bem menor do que a da maioria dos países. E se a gente considerar ainda a sonegação ... Aí está a explicação para a brutal desigualdade no Brasil." (Adib Jatene em entrevista a Carta Capital, n. 578, 13/01/2010, págs. 49 e 50)
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
SOBRE O ETHOS NEOLIBERAL
"(...) ethos neoliberal, imperante no mundo nos últimos anos, que promoveu a ética intolerante dos vencedores, aquela que não deixa ao desamparado, ao inferiorizado, senão a alternativa de massacrar a própria autoestima. 'A individualização' do fracasso, inscrita nos pórticos da concorrência desaçaimada, não permite ao derrotado compartilhar com os outros um destino comum provocado pela desordem do sistema social. O reconhecimento social é uma preciosa forma de remuneração não monetária. E essa retribuição torna-se cada vez mais escassa quando o desemprego e a desigualdade prosperam em meio a uma eufórica comemoração do sucesso do indivíduo." (BELLUZZO, Luiz Gonzaga. Não percamos o espírito crítico. Carta Capital, 13/01/2010, pág. 53)
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
SOBRE OS ARROUBOS MORALISTAS DOS JORNALISTAS
"Gide dizia que com bons sentimentos se faz má literatura. Mas com bons sentimentos se faz audiência. É preciso refletir sobre o moralismo das gentes midiáticas: frequentemente cínicos, eles propugnam por um conformismo moral absolutamente prodigioso. Os apresentadores de jornal televisivo, os animadores de debate, os comentaristas esportivos se transformaram em pequenos diretores de consciência, porta-vozes de uma moral tipicamente pequeno burguesa. Dizem o que é preciso pensar sobre os problemas da sociedade." (Bourdieu apud Belluzzo, Carta Capital, n.575, 09 de dezembro de 2009)
sábado, 24 de outubro de 2009
O MELHOR CAMINHO SEGUNDO POSSAS
"Em economia, como na vida, o caminho mais curto raramente é a linha reta. A alternativa de expor as conclusões diretamente, apenas fazendo uma ou outra referência tópica aos autores ou teorias que as inspiraram, dificilmente atenderia à finalidade maior de buscar um avanço real no assunto tratado. E um modesto deslocamento em bloco, em toda a linha, que permita reunificar forças dispersas e consolidar posições, não raro é mais proveitoso do que uma ofensiva concentrada". (POSSAS, Mário Luiz. Dinâmica da Economia Capitalista: uma abordagem teórica. São Paulo: Editora Brasiliense, 1987, página 13)
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
TRAÇO MARCANTE DO CAPITALISMO
"As operações de mercado são, via de regra, transações entre agentes de poder desigual. Com efeito: a razão de ser do comércio - expressão de um sistema de divisão do trabalho - está na criação de um excedente cuja apropriação não se funda em nenhuma lei natural. As formas 'imperfeitas' de mercado a que se refere o economista não são outra coisa senão um eufemismo para descrever o resultado ex-post da imposição da vontade de certos agentes nessa apropriação. Posto que todos os mercados são de alguma forma 'imperfeitos', as atividades de intercâmbio engendram necessariamente um processo de concentração de riqueza e poder. Daí a tendência estrutural, observada desde os primórdios do capitalismo industrial, para a formação de grandes empresas. Muitos observadores inferiram erroneamente dessa observação que as pequenas empresas tenderiam a desaparecer. Mas a experiência demonstraria que elas são insubstituíveis no exercício de importantes funções: sem as pequenas empresas o sistema capitalista perderia consideravelmente não só em flexibilidade mas também em inventividade e iniciativa." (FURTADO, Celso. Criatividade e Dependência na Civilização Industrial. São Paulo: Cia das Letras,2008.
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