"Não se sabe quando teve início nem quando se banalizou. Mas o processo de idiotização da classe trabalhadora está de tal maneira incorporado nas ruas das nossas cidades que, de vez em quando, alguém precisa falar sobre o assunto e lembrar que a coisa está feia. No cinema, as duas principais tragicomédias que conheço sobre a crise – não só da economia, mas de ideias para se encarar a crise – são “O Grande Chefe”, de Lars Von Trier, e “A Era da Inocência”, de Denys Arcand. Dois filmaços sobre como fingir estar tudo certo mesmo quando tudo desmorona, é um prato cheio para quem já se tocou que, diferentemente dos guias de auto-ajuda, ninguém vai mudar nada no mundo pensando positivo, criando métodos de motivação ou repetindo mantras sobre como podemos ser felizes trabalhando cada vez mais por menos. Ou disfarçando nossa vida de vassalo, de quem come lama e agradece, buscando distração com as viagens no fim de ano." (Matheus Pichonelli, Carta Capital, 26/10/2011)
quinta-feira, 28 de junho de 2012
A CLASSE MÉDIA SOFRE
domingo, 24 de junho de 2012
O FLUXO DO CAPITAL
"O capital é o sangue que flui através do corpo político de todas as sociedades que chamamos de capitalistas, espalhando-se, às vezes como um filete e outras vezes como uma inundação, em cada canto e recanto do mundo habitado. É graças a esse fluxo que nós, que vivemos no capitalismo, adquirimos nosso pão de cada dia, assim como nossas casas, carros, telefones celulares, camisas, sapatos e todos os outros bens necessários para garantir nossa vida no dia a dia. A riqueza a partir da qual muitos dos serviços que nos apoiam, entretêm, educam, ressuscitam ou purificam são fornecidos é criada por meio desses fluxos. Ao tributar esse fluxo os Estados aumentaram seu poder, sua força militar e sua capacidade de assegurar um padrão de vida adequado a seus cidadãos. Se interrompemos, retardamos ou, pior, suspendemos o fluxo, deparamo-nos com uma crise do capitalismo em que o cotidiano não pode mais continuar no estilo a que estamos acostumados." (HARVEY, David. O Enigma do Capital e as crises do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2011, p. 07)
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
CAPITALISMO DE ESTADO
"O capitalismo de Estado existe há quase tanto tempo quanto o próprio capitalismo. Os anglo-saxões gostam de pensar neles mesmos como perenes defensores da ortodoxia do livre-mercado contra a heresia europeia e asiática. Na realidade, cada potência em ascensão contou com o Estado para dar início ao crescimento, ou para proteger as indústrias mais frágeis. Mesmo a Grã-Bretanha, berço do livre-comércio, criou uma campeã nacional gigante na forma da Campanhia das Índias Orientais." (Adrian Wooldridge, reportagem especial sobre Capitalismo de Estado, conteúdo de The Economist licenciado para Carta Capital, 15 de fevereiro de 2012).
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
SOBRE O TERRORISMO DO MERCADO FINANCEIRO E DAS AGÊNCIAS DE RATING
"Esse mecanismo, na minha visão, está em processo de desmoralização. A nossa profissão está readquirindo a economia política que ela jogou fora nessa aventura de ter formalizado tudo e ter esquecido que nós somos uma ciência moral. Nós nunca vamos ter esse padrão: eu faço uma hipótese, construo um modelo, testo o modelo e o modelo que vale. O conhecimento da economia política é fundamental para a boa administração pública, não há dúvida. E nós destruímos isso. Mas estamos reconstruindo. E vai ser muito mais gostoso reconstruir essa teoria econômica do que tê-la destruído." (Delfin Netto, em entrevista a revista Carta Capital, 22/12/2010, pág. 48).
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
SOBRE OS LIMITES DO MERCADO AUTORREGULADO
"(...) o economicismo sustenta que o jogo das forças econômicas regular-se-ia a si próprio e tenderia automaticamente ao equilíbrio sem que fosse necessário nem possível submetê-lo a um poder moderador (...) É impossível que uma função social exista sem disciplina moral. Porque, de outro modo, não há mais que apetites individuais - que não naturalmente infinitos, insaciáveis - e, se nada regulá-los, não podem regular-se a si próprios. E daí provém, precisamente, a crise que sofrem as sociedades européias. A vida econômica adquiriu, há séculos, um desenvolvimento que nunca tinha alcançado; de função secundária que era, desprezada, abandonada às classes inferiores, passou ao primeiro lugar (...) Uma forma de atividade que passou a ocupar tal lugar no conjunto da sociedade não pode estar desprovida de qualquer regulamentação moral especial, sem que disso resulte uma verdadeira anarquia. As forças que foram desatadas já não sabem qual é seu desenvolvimento normal, dado que nada indica onde devem deter-se (...) É da maior importância, então, que a vida econômica seja regulada, que se moralize para que os conflitos que a perturbam desapereçam e para que os indivíduos deixem de viver no seio de um vazio moral no qual sua própria moralidade individual se debilita." (DURKHEIM apud IAZZETTA, Osvaldo. Liberdade e Regulação em uma Sociedade de Mercado: semelhanças de família em Durkheim e Polanyi. In: LIMONCIC & MARTINHO. Os Intelectuais do Antiliberalismo. RJ: Civilização Brasileira, 2010, pág. 26)
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
SOBRE A CPMF E O PODER DA MÍDIA
"Veja o poder da mídia. As classes patronais fizeram com que as pessoas que não pagavam e que eram beneficiadas pelo imposto ficassem contra a CPMF. Sabe por que essa sanha contra a CPMF? Quando regulamentamos a contribuição, a Receita Federal foi proibida de cruzar a informação do Imposto de Renda, mas Everardo Maciel, então secretário da Receita, decidiu cruzar as informações e encontrou o seguinte: dos cem maiores contribuintes da CPMF, 62 nunca tinham pagado Imposto de Renda. Tinha microempresa (que por definição não pode movimentar mais que 120 mil reais por ano) que movimentava 100 milhões de reais. Aí permitiram cruzar as informações. O que aconteceu? A arrecadação federal passou de 6 bilhões, 7 bilhões de reais por mês para 21 bilhões, 22 bilhões. É evidente que gente que nunca pagou Imposto de Renda queira acabar com a CPMF. Aí fizeram uma brutal campanha nacional e convenceram até quem era beneficiado pelo imposto. Se pegar o sujeito que ganha salário mínimo ele é contra, mas quem ganha salário mínimo não paga. Uma vez discuti com esse presidente da Fiesp (Paulo Skaf), que comandou esse processo, tomara que ele um dia chegue a administrar para ver como são as coisas. Disse a ele: "Vocês não querem pagar imposto, esse é o grande problema". A carga tributária brasileira é muito mal distribuída. É predominantemente sobre produtos, bens e serviços, que estão na planilha de custo da empresa. A companhia não paga um tostão, repassa ao consumidor final. Além disso, um terço é de encargos da Previdência Social. Se esse um terço for excluído da conta, a carga baixa para 24%, bem menor do que a da maioria dos países. E se a gente considerar ainda a sonegação ... Aí está a explicação para a brutal desigualdade no Brasil." (Adib Jatene em entrevista a Carta Capital, n. 578, 13/01/2010, págs. 49 e 50)
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
SOBRE O ETHOS NEOLIBERAL
"(...) ethos neoliberal, imperante no mundo nos últimos anos, que promoveu a ética intolerante dos vencedores, aquela que não deixa ao desamparado, ao inferiorizado, senão a alternativa de massacrar a própria autoestima. 'A individualização' do fracasso, inscrita nos pórticos da concorrência desaçaimada, não permite ao derrotado compartilhar com os outros um destino comum provocado pela desordem do sistema social. O reconhecimento social é uma preciosa forma de remuneração não monetária. E essa retribuição torna-se cada vez mais escassa quando o desemprego e a desigualdade prosperam em meio a uma eufórica comemoração do sucesso do indivíduo." (BELLUZZO, Luiz Gonzaga. Não percamos o espírito crítico. Carta Capital, 13/01/2010, pág. 53)
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